domingo, abril 19, 2026

Spravato, seu lindo

 Senti falta de gente falando sobre o Spravato, e espero que alguém chegue aqui pra se informar.


O processo para conseguir a aplicação do SPRAVATO  levou dois anos, e só andou depois de eu fazer um comentário com o plano de saúde, ao qual presto serviço,  sobre o atendimento. Quem quiser se aprofundar me manda um comentário

O REMEDIO

Cheguei 14 horas para a administração do remédio. O SPRAVATO nao pode ser aplicado se nao for num hospital, o que assusta pela imposição. Fui com o meu marido de acompanhante por sugestão da médica do briefing. Sentei na maca. A enfermeira enfileirar as três embalagens do inalatorio, me explicou que seria aplicado um a cada cinco minutos, cada um nas duas narinas.
Primeira aplicação,  ok. Perto dos primeiros cinco minutos, senti um ligeiro torpor, uma sensação de estar aérea. Segunda aplicação,  e o rosto estava todo dormente. Levantava as mãos para ter certeza de que elas estavam ali. Ainda participava da conversa entre meu marido e a enfermeira,  mas pontualmente,  e ponderando muito.
Terceira dose e eu sai do corpo. Fiquei completamente dissociada, sentindo o contato com a maca,  mas sem ter nada a acrescentar na conversa que rolava do lado de fora. Achei que nunca mais ia voltar à realidade, mas durou 20 minutos esse distanciamento do mundo. Comecei a realizar as sensações, sentei na maca e tomei posse da realidade. Mais 20 minutos, estava de pé,  pedindo alta.

Levei até o fim da tarde pra me recuperar, embora tenha voltado a trabalhar 15:45. Nao acho que vou me obrigar a estar tao presto com as próximas aplicações.

Essa foi a primeira de duas por semana, só no primeiro mês. Queria que alguem que procura pelo SPRAVATO  chegasse aqui depois de rodar procurando um testemunho.

sexta-feira, julho 08, 2022

Um Shaggapress todo seu, Lua!


Queria um Shaggapress só da Lua hoje. Porque ela ganhou, vixe, ela passou por cima e venceu. Porque é uma merda o porquê dela operar, mas se tem que ser assim, que seja da melhor maneira. Porque Luana é um portento da natureza, e a gente ainda vai trocar muitos abraços pra comemorar. Porque ela vai gritar com tanta gente que vai VIVER, e há de haver uma ordem no Universo que coordena essa porra toda, e que há de obedecer tantas vozes em uníssono.

Porque minha garganta tá apertada por ela, logo por ela, essa coragem toda que nos move a juntar coro e saber que o vento virou. Queria um Shaggapress pro ano que vem, quando ela estiver a meio caminho da cura, ou pra daqui a dois anos, quando vier a noticia de Luana venceu. Mais uma vez. 

Queria abraçar Luana hoje, levar um quindim, sentar e rir de apreensão, de alivio de alegria. Apreensão pelos próximos dias, alívio porque a vida tá aqui enfronhada na gente, alegria por aquele dia na Manoel Dias ter se tornado um post só dela. Um Shaggapress inspirador pra mim, que sentei inquieta porque queria escrever pra ela, espero que inspirador pra ela.

Hoje a musa foi você. Um post que não quis esperar aqui dentro e me fez sentar perto da tardia hora da meia noite para escrever o quanto você é importante, e quanto tempo a gente perde sem abraçar os queridos. Não vejo a hora de te apertar. Venha logo, vai ter bolo!




sábado, janeiro 01, 2022

Ela faz 74 anos e ainda me espanta

 


O Natal levou anos para entrar na minha casa. Nunca montei uma árvore, mesmo mãe de criança pequena por tantos anos. Estranho pra quem foi criada pela filha da ajudante oficial do Papai Noel.

Natal lá em casa não passava de 16 de novembro pra começar. Árvore da minha altura: sim, 1,70 do chão ao topo, sem a estrela. Enfeites que remontavam à infância da mamãe, à minha e à da Helga. Dos ursinhos mais finamente confeccionados aos adereços de escola que vinham a cada dezembro para amenizar o boletim nem tão auspicioso.

Luzes, luzes, réplicas do Papai Noel de todas as variedades: de paraquedas, rebolando ao som das palmas do visitante encantado, ou pregado à parede. Plural de Papai Noel é Papais Noéis? Ela era múltipla na arte.

Veio 2011, última árvore que mamãe montou. Adoecida já, penou com a dor, mas a Broadway natalina ficou pronta no nosso último Natal juntas. A desmontagem já foi um prenúncio do que seriam os meses seguintes. Foi diferente, meio desordenado o rearrumar, ela, logo ela, que tinha um zelo tão grande pelos enfeites antigos e novos.

Quando precisamos reordenar a vida, agora sem ela, a árvore ficou comigo. 2012, e nunca achei as toneladas de penduricalhos de adorno. Diz a lenda que estão aqui em casa, mas a minha Mansão Foster para Amigos Imaginários nem é tão grande que não as tenha visto em algum momento.

Em 2021, lá vem dois fenômenos quase concomitantes, que são a prosa de hoje. Marcelo, meu consorte, não se conformou de uma casa tão bonita estar tão despida de Natal. Desenterrei a árvore da mamãe, as luzinhas (DE DEZ ANOS ATRÁS), fui trabalhar e o deixei montar. Nessa ordem.

Que casa mais linda ganhei. Ele fez uma delicadeza tão grande em armar o pinheiro e aproveitar os dois fios de luz, além dos três enfeites localizados e aplicados. Curtimos do sofá as luzinhas, apagamos a luz do teto, a TV, que coisa linda!

Uns quatro dias depois, DO NADA me deu vontade de vasculhar um depósito que temos aqui, ao qual chamamos carinhosamente de sarcófago. Tem 30 anos de Bahia acondicionados ali, das mais variadas maneiras: jogos, brinquedos, equipamento de mergulho, fardos de couro, coleção de chaveiros da minha mãe. Opa, coleção de chaveiros!

É uma caixa com uns 500 chaveiros que começam a sua cronologia em 1960 e pouco. Cresci com essa coleção como o brinquedo proibido: mamãe levava muito a sério o hobbie. Uma vida inteira estava naquela embalagem. Eu aos 4 anos os vendo receber a turma de trabalho na minha piscina de plástico. Aos 7, hospedando num hoteleco de quinta entre São Paulo e Rio com eles. Os chaveiros do trabalho do meu pai, do da minha mãe, por final, acho que dos últimos adquiridos, do antecessor do meu.

O movimento foi mais intuitivo que racional? Sem dúvida. Espalhei os chaveiros no chão e fui separando um, outro, e pendurando na árvore pelada. Em pouco mais de uma hora saí de um pinheirinho só feliz para um radiante e cheio de história. Cada galho cresceu comigo com um adorno diferente, um tempo seu, um sorriso de lembrar.

Ano que vem tem árvore, tem Natal? Tem sim senhor. Mas esqueçam as bolinhas espelhadas: inaugurei uma árvore de saudades e afetos, e os chaveiros serão permanentes.

Achei que seria bom contar isso no aniversário septuagésimo quarto ano dessa senhora que ainda me arranca sorrisos na base dos sustos, dez anos depois de ter ido correr atrás de joaninhas. Feliz dia, mãe, “até mais, e obrigada pelos peixes!”.







sábado, setembro 19, 2015

Who wants to live forever - ou o dia em que chorei

- Obrigada por ter vindo!
- Obrigada pelo carinho!
- Não, não é o enterro da mãe do Carlos. Sim, obrigada pelos sentimentos! (Juro!)
- Helena, se não fizer a lição não vai na festa!

Esses foram os diálogos do enterro da mamãe, naquele cinco perdido de maio, 2012. Até hoje tenho flashes de como foi o dia, da briga que comprei no cortejo por ter um carro parado no caminho, motorista e transeunte atualizando a conversa (Obrigada, Fábio Vaz, por ter apartado e me tirado de lá: disso lembro), da Helena correndo pelas sepulturas com meu cunhado (Wilson, obrigada por tudo e por sempre), nuvem rosa e loura. Lembro da Jana e da Ritinha me levando para ver um túmulo com faixa de Merry Christmas. Maio, relembro a vocês. Eu ri.

Sobre o enterro errado, minha irmã estava por lá, chegou uma senhora aos prantos, abraçou, deu os pêsames, perguntou pelo Carlos. Desfeito o  engano, pêsames reforçados, sobrou a história. 

Tudo feito, sensação de anticlimax, não conseguia chorar. Nada. Desde a hora em que fui avisada do fim, e fui a primeira, e dei a notícia para a vovó, não tinha vertido uma lágrima. Ainda tinha tentado ir gravar, pauta de sexta-feira numa feira de noivas, mas fui trazida à razão: o mundo não estava mais igual.

Estranho como a gente se dá conta de que a vida realmente continua. O sol nasce, tem engarrafamento, tem gasolina pra colocar no carro, tem gente produzindo... E você com aquela coisa engasgada, "parem, minha mãe morreu, como é que a vida continua normal para vocês?". E continua. Até para mim continuava, tinha que manter a normalidade para a filha não perceber e introjectar a dor Ocidental da morte. Vida que segue, filha, todo mundo vai morrer, faz sua lição e vai pra festa, sim.

E nada de chorar. Precisava desaguar, panela de pressão explode se não tiver um escape. 

Noite, sozinha, cartão de crédito no bolso, celular com música no outro, vou sair pra andar. Andei, andei, cansei, fui, voltei, nada, preciso. Respiração acelerada, mais pela expectativa, pela dor não vazada, pelo silêncio. Sento no Farol da Barra, e acesso a pasta de músicas dela. A saber, meu celular andava morto, numa tendência da temporada, e peguei o dela, com sua músicas, programações.
 

"T
here's no time for us
There's no place for us
What is this thing that builds our dreams
And slips away from us?

Eu assentei.

Sem sentir, deitei na grama do Farol da Barra, meio encolhida, mãos no rosto, sem lembrar onde estava, se tinha gente perto, e chorei aos haustos. No repeat da música, chorei todos os meses da doença, dos dias em que não achava força em mim, e sim na minha irmã, meu pai, ou na própria mamãe. Ou em lugar nenhum, e ainda sim estava lá, com ela consciente ou não, conversando, contando a vida, até brigando - éramos ela e eu, nunca deixamos de ser. Chorei pelo choro não chorado no enterro, pelas lágrimas que não caíram nos boletins diários da UTI, pelos dias sem ela que viriam, e que doeriam, como doem até hoje.

E como essas reminiscências vieram parar neste ponto? 

Show do Queen ontem no Rock in Rio. Só isso. Esse foi o fio do novelo.

Who wants to live forever?

Fiz as pazes com o Queen. Três anos depois, ouvi Who Wants to Live Forever? em paz. Sim, com muitas lágrimas, mas com mais paz do que tive nos últimos anos.

Crescer deve ser um misto disso, de paz e lágrimas coexistindo, de olhar pra frente com a visão menos turvada pela névoa da dor. Fiz questão de revisitara música para ter certeza de que o pior havia passado.

E sim. O pior já passou.

Eu acho.

Who wants to live forever?


quinta-feira, junho 06, 2013

Dia #4 sem fumar

 

Muito cedo para me chamar de ex fumante. Tinha combinado comigo mesma (ok, ok, com Helena, Helga, Gleice e Dimitri) que meu dead line de cigarros era no dia da assinatura do contrato da Petrobras.

Combinado não é caro. Parei (pelo menos por enquanto). Há quase uma semana sem fumar — ensaio —, CLARO que o primeiro dia oficial ia ser tenso. Persegui fumantes na rua atrás do cheiro do cigarro. Pensei em cigarros dançando comigo pelos campos da Áustria, e cantando Edelweiss. Saltamos nas piscinas em acrobacias, Esther Williams (RIP) da indústria tabagística e eu.

Tirando o exagero que me é habitual, vamos lá: não vou morrer. Treinei bem para a nova vida de sem cigarro, fiquei sem levantar da mesa para fumar em locais proibidos... Mas nada prepara para a triste hora do fim. Dói, dói perder o único objeto que esteve em cena na minha vida de 1989 pra cá. Dói não ter a muleta amiga, dói não ter o tempo entre abrir o maço de cigarros, tirar um indivíduo, acender, soprar, para depois de tudo responder. Dói não ouvir minha mãe perguntando se eu não queria uma gotinha de colírio, quando pedia uma tragada do cigarro.

É meu hábito mais longevo, minha companhia mais constante, meu amigo mais próximo ao longo desses anos todos. Foi quem esteve comigo em absolutamente todos os momentos de necessidade. Foi quem me amparou quando precisei... e foi quem motivou minha dor tão grande.

Era pra ser um texto mais felizinho, e ainda o será, mas não dá pra deixar de dizer que eu deixei de fumar porque tenho pai e mãe com história de câncer. Papai tá todo bonitão, vivinho, curado, e vai enterrar muita gente nova. Mamãe... Bom, knockout.

É isso. Hoje estou fazendo quatro dias sem fumar, não me chamo de ex fumante, mas é a primeira vez em 24 anos que eu paro por vontade própria. Conto depois como parei de fumar (e voltei meses depois) na primeira vez.

Teste de fogo: o dia #5 sem cigarro vai começar emendando no dia #1 no trabalho novo. Sem medo, mas não vou levar o maço de cigarros. Vai que...

sábado, janeiro 26, 2013

— Vamos?




Namorado agora é atleta. Anda todo dia, parou de correr por causa de uma estirada (?) na panturrilha (a.k.a. batata da perna), mas é firme e forte na caminhada. Culpa da Sogra, que caminha todo dia com chuva, raios, tsunamis. Vejo os ganhos de qualidade de vida dos dois, morro de invejinha do bem, mas vontade?

 Namorada cá é sedentária. Mais ou menos, porque meu trabalho me dá um puta condicionamento físico. Corro, subo e desço dunas, ladeiras, retões, uma delícia. Volta e meia ele vem pra minha casa, traz tênis, short, playlist, o escambau.

 — Vamos?

 Minhas respostas são variadas: “vai chover”, “preciso trabalhar”, “a lua está em gêmeos”, mas ir que é bom... Até ontem. Veio ele pra cá ontem à noite cheio de alegria, roupa de correria, digo, corrida, disposição pra três pessoas. Uma delas era eu.

 — Vamos?

 ão dava. Filha estava voltando de quatro dias na casa do pai, ia chegar naquele meio tempo... Vou esperar, né? Já tinha separado 3 episódios de Six Feet Under, ventilador ligado, caminha esperando... E filha chegou.

— Por que ela não vai também?

 Olhos da filha brilharam. Se convidá-la pra andar descalça sobre brasas, ela topa, porque é sinônimo de sair. Suspirei. Suspirei de novo. — Vamos.

 Calça (folgada, obrigada Deus pelos quilos perdidos, MESMO SEM CAMINHAR!), tênis (velho e furado, confortável demais, mas que vença pelos talentos, porque pela beleza...), camiseta. Outro suspiro. 

— Vou te odiar amanhã?

Namorado ri e diz que não.

Oremos. Chave de casa na mão, filha na outra, vamos lá. Por que, Senhor, por quê?

Se eu estiver mentindo, que me caia uma chuva de tênis com amortecedor para corrida em terreno acidentado na cabeça: CEM METROS depois de ter saído de casa, pisei de mau jeito e senti uma fisgada na virilha. Trinquei os dentes, sorri e fui arrastando a perna pela vida afora. Lembrem-me de NUNCA MAIS criticar um jogador de futebol que “sente a coxa” depois de um treino, ou que não joga porque doeu a virilha. Toda a minha solidariedade.

 Porto da Barra. Praia, noite de sexta-feira, gente jovem reunida. E eu lá, contando cada metro da caminhada. Filha tagarelando, perna doendo, calor. Delícia.

Namorado para pro alongamento, “vou acelerar um pouco o ritmo, tá?”. Claro, meu amor, vai na frente, me encontre aqui mesmo na volta, sendo atendida pelo SAMU.

 Anda, anda, anda, anda.

 (Pausa para uma explicação: acho andar uma cretinice sem fim. Você anda, anda, anda, chega num ponto e... VOLTA! Anda pra lugar nenhum sem objetivo, e VOLTA! É pior que andar na esteira! )

 Anda mais, se pergunta como Namorado e Sogra SENTEM FALTA disso, chega no Farol da Barra. Vento, muito vento. Não fui de óculos porque quebraram (os novos estão chegando!), e claro, entrou um cisco do tamanho do mundo no olho. Direito. O pior dos dois.

 Cisco. Filha puxando pela mão. Perna doendo. Opa, olha a unha encravada aí, que há dez anos não dava o ar da graça! Namorado foi lá longe, e já estava voltando.

 Voltamos todos. Calça colada começa a coçar. Parei pra arranhar com as super unhas quinhentas vezes, como odeio calça de exercícios! Falei que estava grande? Então... Passei o caminho todo levantado o cós. Patético. Farol da Barra de novo, outro cisco.

 — Não vou esperar amanhã pra te odiar.

 Voltamos. Sobrevivi.

 Nota triste: logo depois de chegar, me armei de uma coragem desconhecida e fui lavar a louça e fazer suco de melancia, de uma fruta que comprei INTEIRA (cadê o juízo, que me deixa comprar uma melancia inteira?).

 Ou seja: funciona. Exercício realmente aumenta a disposição, renova o ânimo, é um show de endorfina. Hoje, dia seguinte, estou moída, não levanto o braço (não sei o motivo, já que andei, não fui de bananeira), e a perna direita já avisou que só faz o essencial hoje (cozinha – banheiro – quarto).

 Fim da carreira de atleta? Não sei. Poderia dizer que tenho trabalho louco e acumulado na próxima semana, que vou estar cansada, que não dá pra caminhar com a filha... Continuo odiando exercício, me perdoem os amigos atletas , mas acho que não dá mais pra viver sem, tampouco adiar. Que o digam Namorado e Sogra.

quinta-feira, novembro 22, 2012


Dorme tarde. Acorda cedo, corre, corre produz, atualiza agenda, telefone 1, 2, 3...n. Deporta filha pra almoçar no avô, alimenta o gato, senta, trabalha, trabalha, toma banho, externa, corre, corre, corre. Encaminha última entrevista, anda, anda, anda, pega ônibus, médico. Exame, "você é fumante?", marca bateria de testes, ônibus, corre, corre, casa do pai. Alimenta filha, gata, atualiza email, começa a trilhar matéria, pega todo mundo, casa. Filha no banho, notícias do freelance chega, Coca Zero, nenhum jornal na Tv. Cansaço.

E ainda não é o fim.

segunda-feira, setembro 24, 2012

Pela janela

Quando escolhi esse apartamento, o que me encantou de primeiro foi a janela.

Segundo andar, nascente, dava pra ver a lua nascendo, e talvez, num dia insône, o sol também. Posicionei estrategicamente o computador do lado dela, e daqui vi a vida passar.

 Já vi assaltos, brigas, aprendi a rotina dos vizinhos, e sim, vi dias sem fim nascendo, e luas incontáveis me ajudaram a levar o próximo dia adiante. Já me senti uma batata assada com o sol que entrava sem convite pelo vidro, e já morri torrada quando instalei as cortinas.

 Da minha janela conheci o vendedor de picolé, o chow chow — que tem um irmão schnauzer e um dono que morde —, ouvi o vendedor de gás ensaiando para a carreira artística, as velhinhas mimando o porteiro pop star. Me encantei com todos os céus plúmbeos que consegui ver daqui, já vi arco iris duplo, tempestades, dias baços — mesmo que baça fosse só minha alma. Já encostei a cabeça vezes sem fim neste vidro e chorei. Se vi o mundo da janela, muitas vezes o mundo me viu desabar e levantar.

Foi ao lado deste pórtico que me sentei e comecei a elaborar a morte da minha mãe. Foi olhando pra fora que a cabeça começou o lento e doloroso processo de entendimento. Foram as longas horas de olhares mais longos ainda que eu achei que estava melhorando, para depois achar que estava pior, para sacudir a cabeça e deixar pra lá. Tanto quanto mudei, mudou a vida lá fora.

Minha mãe viu o mundo pela minha janela, olhou um pouco da vida pelos meus olhos. Seu último ato nesta casa foi vir até aqui, cheia de dor, para me trazer cortinas de presente para a sala. Nunca as pendurei, vão ser inauguradas na casa nova, de onde vão acompanhar o próximo capítulo que se apresenta num futuro próximo. Quase como se fosse um pedacinho dela, os olhos dela me acompanhando nestas novas janelas. Quase como se mamãe pudesse, mesmo sem estar aqui, enxergar mais um pouquinho do que eu queria mostrar.

quarta-feira, agosto 22, 2012

Desvio de função

Era uma vez uma escova laranja. Linda.


Ela veio pra minha casa junto com a pá. Laranja. Linda.



Essa é a Helena, minha filha. Ela não é laranja, mas é linda. Tem sete anos, três dentes permanentes, uma janela e um molinho, pra cair.


No dia em que comprei a pá de lixo + escova, desembrulhei e só usei a pá. A escova, novinha, ficou na sala E Helena achou.


Elas se encontraram, criança e escova. Escova laranja, cabelo louro, e seguiram as duas felizes para sempre.

Ímpares ficamos nós, pá de lixo e eu, sozinha ela, sozinha eu.

terça-feira, agosto 21, 2012

Uma história de amor em imagens

Muitos anos de amor com esses portentos, e finalmente nos encontramos, os navios e eu. Estar embaixo de um ro-ro (o vermelho) é reverencial, é um sonho realizado, e um encontro de amantes à distância. Ele lá, passando pela minha janela todos esses anos, exibindo sua carapaça. Eu daqui, olhos que o seguiam baía adentro, apaixonados.

Hoje foi isso: um reencontro de amor, renovação dos votos de admiração, promessas sussurradas de fidelidade. Eu e meus navios, e uma alegria de bebê quando vê seu primeiro elefante.

(Clique nas imagens: elas ampliam, e estão lindas!)


sexta-feira, agosto 03, 2012

And after all... - 3 meses sem você, mãe


Tem três meses exatos desde que você morreu, mãe. O texto é o mesmo: dói como se fosse ontem, e o tempo se encarrega de deixar parecendo um ano passado.

Vamos sacrificar a cadela louca, Mabel. O problema neurológico dela se agravou, e chega de gente sofrendo, né? Difícil está sendo com Helena, porque foi um ano de muitas perdas, e Mabel será das mais importantes pra ela. Lidaremos, claro. Lidamos com D. Neide, com Andreza, com Nana, com você.

Você, mãe, que nem eu, adulta, espiritualizada, sabedora que sou da obrigação de morrer, nem eu consegui lidar. Três meses, e eu não consigo esquecer um dia sequer.

Nem precisa. Morrer não significa ser degredado. Morrer significa que aquele exemplo não pode mais se renovar. Não há novidades nas lições que você nos deixou. É repetir, repetir, repetir. E aprimorar, claro: a gente foi feita pra passar o rascunho a limpo, e criar um história baseada em fatos reais, mas muito, muito mais correta.

Não há um dia passando sem que o amor por você seja esquecido. Não houve um dia em que você não tivesse sido lembrada com um amor muito grande, e uma oração — às vezes nem tão grande assim —, e que a gente não tivesse desejado que seu caminho fosse o melhor.

Vida é isso, e a gente aprendeu da pior forma. Boas notícias vem, e vem justamente quando e porque você foi embora. Adoraria dividir as "Loucas Aventuras Imobiliárias de Daniela", queria te mostrar os azulejos bizarros, a academia de uma esteira só.... Mas isso só acontece porque sua história acabou cedo demais, e antecipou a minha.

Fim.

Que seja.

Feliz, feliz, feliz? Não. Mas não vou remoer tristeza por um longo tempo. Não é justo comigo, com a Helga, com o Papai. Com você. Dói, mãe, dói de um jeito louco, como achei que os dias de UTI me deixariam blindada. Dói hoje como doeu no dia, e acho que talvez muito mais.

Hoje estou mais concentrada a respeito da sua falta. Pedi muitas desculpas pelo meu comportamento leviano no seu enterro, mas era a minha defesa. Ainda é. Faço um monte de merda, e quando vou ver, ainda é sob sua égide. Não que isso desculpe: sou adulta, e desde sempre deveria me comportar como tal. São deslizes, escorregadelas estas que não vou nunca justificar para os poucos amigos da minha vida.

Sou isso. Sou covardia, sou disfarce numa noite de vinho, sou fraqueza, sou MUITA tristeza, sou reequilíbrio Sou cada dia mais um pouquinho, e cada dia melhor. Quero cada dia mais ser sua filha, mãe: sem temor, sem censura, respeitando. E que assim seja.



quarta-feira, julho 11, 2012

Samba de uma nota só



Mamãe de novo.

 Talvez porque eu tenha ganhado de aniversário um porta-retratos de joaninha, e que tenha automaticamente colocado uma foto 3x4 dela. Horrível, como são os 3x4.

 Talvez porque os dias não fazem o menor sentido sem ela. Não consigo entender os dias de chuva, dias de sol, em que ela não participe do meu azedume, dos meus comentários ácidos.

 Talvez porque Helena não tenha digerido direito, e que, como eu, procure subterfúgios em histórias terceiras para poder justificar a dor, o acordar assustado de madrugada, os pesadelos. Exatamente como eu.

 Talvez porque ainda não tenham passado três meses, e que parece que a vida força passagem pra continuar, mesmo sem ela. E força. Concurso, apartamento, trabalho, contas, seguro contra incêndio, dias que nascem e morrem no mesmo continuum.

 Talvez porque as joaninhas estejam de casa nova, metade no meu pescoço, metade no pescoço da Helga. Talvez porque os pequenos objetos estejam sendo cuidados com especial zelo.

 Talvez porque a gente esteja se reorganizando, fazendo novos grupos, novas combinações de almoço, café da tarde, conversas. Talvez porque eu não tenha mais pra quem mostrar os horrendos pisos e azulejos das Loucas Aventuras Imobiliárias... que não existiriam se ela estivesse aqui.

 Talvez porque o atelier esteja uma bagunça, e que isso seja uma flagrante desobediência à sua ordem compulsiva. Talvez porque a Al esteja fazendo coisas deliciosas em artesanato, e que não consigamos desvincular esse talento da mamãe.

 Não sei. É o mesmo samba, samba que toca diariamente, mesmo que não ouçamos, mesmo que seja sempre a mesma música, calada ou com as mesmas frases.. É a ausência física da mamãe, das suas risadas, dos seus telefonemas atormentantes. É o não poder mais dividir as fofoquinhas e notícias, mesmo quando a primeira coisa que nos vem à mente é: "Preciso ligar pra mamãe AGORA pra contar isso.".

 É o voltar das quartas feiras de terapia sem ter chorado, sem ter tocado no ponto de tudo que me destrói hoje. É isso, mãe: passa, mas é isso.

 Morro cada dia um pouco de saudade de você. Morro, mas vivo mais um tanto.

quarta-feira, julho 04, 2012

Longa carta para alguém

Mãe,

 Se dissesse que foi ontem, seria mentira. Se dissesse que foi há uma vida, seria mentira também. Mentiras, e ambas muito verdadeiras. Foram dois meses estranhos, sabe? Se alguém me dissesse que seria assim, eu jamais acreditaria.

Dias muito longos, e o tempo insiste em se comportar do mesmo jeito de sempre: demora a passar para algumas coisas, voa para outras. Ando rabugenta (papai e Helga ririam, e já riram, dizendo "Anda? Você é!"), intolerante, fazendo bobagens, chorando de quando em quando, devastada.

Acho que não tenho mais vergonha de dizer que estou devastada. Passei um tempo pensando que deveria honrar tudo o que você nos ensinou com a minha serenidade, com respeito, com o saber viver. Quando a curva da estrada chegou, o que tinha sobrado de meu eram as chaves da sua casa, um vazio assustador, um abismo sem fim.

 Veja, não é um chamamento. Não é (voz cavernosa)"vooooooooolte, mamãaaae, não me deeeeeeixe!". Jamais. É mais um "putaquepariu,você deixou saudades!". É um assumir a minha susceptibilidade, é contar que dói, dói muito, mas eu sei que vai passar. Mas são dois meses hoje, mãe. São dois meses sem você me atormentar, dois meses sem brigar com você (e olha que a gente discutiu na sua UTI, e você sem voz!).

Passou meu aniversário, e a primeira coisa que lembrei naquele dia foi "ela não me ligou para gritar 'parabéns pra você' no meu ouvido". Passou o aniversário da Helga, e foi difícil igual pra ela. Eu sei.

 Dói de um jeito que eu nunca imaginei que fosse doer.

Eu trabalho, eu vivo, entrei para a BR nesse meio tempo, e ainda assim, parece que estou vivendo num aquário. Movimentos lentos, imagens distorcidas, e meio mundo olhando pra saber o meu próximo passo.

Meu próximo passo é viver. Do jeito que der, como for, vou viver. Abrindo caminho com facão, me divertindo quando dá — e cada dia mais vai dar mais um pouco —. me recolhendo quando precisa, escolhendo pessoas, situações. Vou vivendo.

Não posso dizer que a vida está ruim. Você não era eterna, e a gente sabia. Coisas legais aconteceram, e que bom que consegui ver.

 Me perguntaram o que eu pediria, se tivesse um pedido, qualquer pedido, para realizar. Nunca pedi pra você estar viva. Pedi só, como ainda peço, que você, de onde estiver, veja as coisas legais que a gente tem feito.

E que se orgulhe. Vivo pra isso, para te dar orgulhos imaginários.

 Love.

segunda-feira, junho 25, 2012

Prazo de validade




O molho branco acabou. Acabaram também os sachets de tempero de feijão, os requeijões há mais tempo. O queijo Polenghi já virou um rastro de memória de um passado distante, mas o mesmo não se dá com os potes de Nutella: ainda existem, mas estão perto de expirar a validade.

Os macarrões cheios de frescura estão nas últimas, o creme de leite já era, e eu ri quando achei a última embalagem de leite condensado tetra pack: minha tentativa de fazer doce de leite cozido nesta embalagem de papelão rendeu bons dias de gargalhadas da mamãe. Por algum motivo misterioso, o alho picado e a cebola triturada ainda estão em perfeito estado de conservação, mas o mesmo não posso falar da goiabada cascão, que veio do Rio pra mim em novembro do ano passado. Hora de rearrumar a geladeira. Há dias me desfiz de um patê de presunto moribundo, que passou meses escondido embaixo do parmesão ralado — que ainda passa bem, a propósito.

Os azeites importados continuam lá, e como os apresuntados, ainda poderão estar comigo em 2015. O catchup não vai ficar por tanto mais tempo, mas acho que os molhos de tomate ainda hospedo por mais uns seis meses. Cada louco tem sua mania, e na minha casa pode faltar fósforo, mas nunca tem menos de 6 embalagens de molho. Ela sabia, e sempre fazia uma festa quando me avisava que novo carregamento estava a caminho.

Este poderia ser um texto sobre a desordem da minha vida, sobre a minha geladeira caótica, e tudo seria pertinente. Mas não é esta a natureza desse escrever de hoje. É uma constatação, mais uma, de que a cada dia a minha mãe me deixa mais um pouquinho. De que a cada dia ela ocupa um pedacinho a menos do meu cotidiano. 

Todo mês a mamãe ia ao um mercadão atacadista, e fazia uma caixinha pra mim, outra pra minha irmã, cheias de coisinhas supérfluas. Queijos, Nutellas, azeites, iogurtes, um monte de frescurinhas que compunham um ritual de descobrimento das compras: eu ligava pra ela e ia destrinchando o conteúdo, dando gritinhos, ameaçando não dividir com ninguém, pensando na receita que ia fazer. Desde que ela adoeceu, mal fomos ao mercado para o básico, que dirá para as bobaginhas. 

Cada produto que acaba, cada vencimento que se aproxima, é mais uma pequena morte, mais um mini choque da perda, por mais que eu ache que a transição está sendo tranquila. Não está. 

Me salvam os azeites, companheiros que vão me arrancar sorrisos pelos próximos 3 anos. Me salvam as cortinas, que ganhei de presente na última vez em que ela foi na minha casa, já doente, já com dor, já fazendo um esforço enorme para sair da cama. Mais do que isso: me salva a educação que ela deixou, as ferramentas que recebi para viver bem até sem ela, porque, óbvio, não somos eternos. Me salva saber que mamãe — e papai, course — me ensinou o caminho para poder eu mesma comprar meus queijos. 

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Faço um esforço hercúleo para viver bem a cada dia, mas o luto faz parte, e isso eu tenho que introjectar. Muito tenho brigado comigo, muito me saboto, muito acho que não mereço as coisas e pessoas boas que tenho na vida. Mereço cada um dos meus amigos, mereço cada gentileza, sou uma pessoa legal. Tenho direito a ficar triste, sim, tenho direito de chorar quando preciso, tenho dever de viver cada etapa. Ao invés de vestir uma armadura, e saltitar que nem um elfo feliz, vou me dar ao luxo da introspeção, do retiro, do mimimi. 

E só a decisão de tentar já é uma vitória.

quarta-feira, junho 20, 2012

Drops

Faz o que com a irmã que fica ouvindo Marcelo Jene*ci com a sobrinha a.k.a. minha filha? É alguma deformação dos gens? ******** Eu espero o elevador com ascensorista para saber das fofocas da vida dela. Mesmo atrasada. ******** Baixando Miranda "iCarly" Cosgrove, e minha filha pergunta se sou adolescente. Mato? ******** Partindo para a terceira comemoração do meu aniversário, versão Mouraria.

terça-feira, junho 19, 2012

Diálogo com uma empreguete

Todo dia acordo cedo,
Moro longe do emprego 
Quando volto do serviço quero o meu sofá

Eu também acordo cedo, às vezes saio de casa 04 da manhã, passo o dia inteiro correndo de um lado pro outro, volto às duas do dia seguinte, e ainda tenho que madrugar para mais uma jornada. Mas é a profissão que tenho (e nem foi a que escolhi, mas isso é outra postagem), e se não tenho outra, vamos ser felizes assim mesmo.

Tá sempre cheia a condução 
Eu passo pano, encero chão 
A outra vê defeito até onde não há


É, minha querida, ônibus cheio é uma praga, mesmo. E eu, que depois da enésima tentativa de assalto ando tensíssima, de olho em cada gente esquisita que passa pela catraca? Se me parecer nervoso (a) demais, olhando muito para os lados, desço no ponto seguinte. Gasto o dobro pra chegar em casa, mas é melhor do que levarem meu celular querido. Sobre passar pano, encerar o chão... Veja bem: não são parte das atividades inerentes ao seu cargo? No meu trabalho, subir dunas correndo, descer esbaforida, não ter hora de almoço, não ter domingo, feriado, tudo isso faz parte do rol de atribuições. E a "outra", que suponho ser sua contratante, ver defeito em tudo, ora, quantos chefes não são assim, em diversas áreas?

 Queria ver madame aqui no meu lugar 
Eu ia rir de me acabar 
Só vendo a patroinha aqui no meu lugar 
Botando a roupa pra quarar

Taí o equívoco-mor da história toda: eu sou contratada para fazer um trabalho que os meus chefes não podem, não querem ou não tem tempo de fazer. Por que esse rancor de "queria ver você no meu lugar"? Como se colocar a roupa para quarar fosse tão desonroso que pudesse servir de vingança contra um superior hierárquico pentelho. Não é, não. NÃO EXISTE TRABALHO INDIGNO! Você tem um contrato para executar uma tarefa que eu não posso ou quero fazer. Tirar a mesa, lavar a louça, limpar o chão, nada disso reduz o valor de ninguém, do mesmo jeito que servir café, varrer a rua antes de um take ou almoçar sentada no meio fio não me diminuem.

 É muita vitimização, é falta de respeito por si e pelo seu trabalho. Essa postura subserviente revoltada não te leva a lugar nenhum, cara empreguete. O que te faz subir um degrau atrás do outro é a competência com a qual você exerce a sua profissão. Isso vai te notabilizar, isso vai te garantir a sensação deliciosa de dever cumprido. Creia-me: no dia em que você descobrir o valor que você tem, a vida vai ser muuuuito mais camarada contigo.

Minha colega quis botar 
Aplique no cabelo dela, 
Gastou um extra que era da parcela

 Bom, cada um sabe das suas finanças, né? Tenho pavor de fazer dívida, nem cartão de crédito tenho, mas eu escolhi assim. Deixo de ter as coisas, mas durmo tãaaaao bem...

Levo vida de empreguete, eu pego às sete 
Fim de semana é salto alto e ver no que vai dar 
Um dia compro apartamento e viro socialite 
Toda boa, vou com meu ficante viajar

Torço muito por isso, adoro gente que vai para onde quer, gente que conquista seus objetivos, sua casa, seus sonhos. Mas vamos lá: se você vai viajar com seu peguete, virar socialite, pouco tempo vai sobrar para os afazeres domésticos. E aí, empreguete, que tipo de "outra" você vai ser?

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Andei incomodada com a letra dessa música desde que ouvi minha filha cantando. Hoje, só para confirmar os meus temores, ouvi e li a música inteira. É ruim como eu havia imaginado. Não: é pior.

A música aparentemente engraçadinha cria uma trincheira na já combalida relação de patrão vs empregada. O conteúdo é tão rancoroso que assusta. As empregadas se colocam numa posição subaterna, inferior, e não se engane: é cantarolando sem preocupações que a música chiclete gruda e cumpre sua finalidade.

Ah, Daniela, você não assiste à novela, então não pode descontextualizar a letra da música do enredo do folhetim. Não assisto mesmo, acho um porre, yadda, yadda. Só que a minha filha também não assiste, e a menos que eu a amarre no meio da floresta, impossível poupá-la do contato com a cultura pop. E é essa mensagem preconceituosa que ela recebe, pinçada do contexto da novela, raivoso, vingativo.

Não é um texto contra a Globo, contra a novela, contra a massificação dos produtos de mídia, nem nada alusivo a lavagem cerebral, estupidificação dos sentidos ou quaisquer dessas baboseiras de um mundo haribô utópico. Não. É o choque de ver a manutenção de um ódio ancestral, popularizado num muito bem sucedido clip. É muita gente cantando, curtindo, e internalizando uma mensagem daninha, e não vi NINGUÉM levantando a lebre. Em não tendo nada pra fazer, trago eu minhas angústias à baila.

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 E bem vindo de volta ao Shaggapress!

quinta-feira, outubro 06, 2011

Alteração de email

Amigos e parceiros,

Depois de anos de intensa relação, estou encerrando a minha conta de email do superig. Por favor, apaguem o dhenning@superig.com.br e inclua o danihenning@gmail.com

Um grande abraço,

Dani Henning
Produção Salvador
71 8896 8576
71 91080628


domingo, maio 22, 2011

A banda mais bonita da cidade

Coisa na vida que eu detesto: crítica destrutiva. Ponto.

Ok, não gostou; ok, não concorda. Dois caminhos, pois: ou sustenta INTELIGENTEMENTE o porque não gostou, e sugere uma ou outra mudança, ou cala a boca, clica no Xzinho lá em cima, e vamos que vamos.

A questão é que cheguei há pouco no universo da A Banda Mais Bonita da Cidade (Ctrl+C, Crtl+V). O tanto de bobagem que ouvi foi de matar de vergonha alheia. Os piores adjetivos estão aplicados ao clipe. Minha opinão sobre a banda? Daqui a pouco, calma. O buraco é mais embaixo.

Chamar a banda de retardada vai acrescentar o quê na vida do criticante? Além da satisfação em ser sádico, ganha-se o quê? Postei um comentário no Facebook, e a Grazi rebateu com a própria opinião. Em tempo algum desabonou a banda. Desabonou, sim, a própria experiência, a fruição, etapa esta que se refere a ela com a música. Não gostou, pontuou, e deu um show de elegância em não criar adjetivos grosseiros sobre a banda.

Odeio crítica que só destrói. Atrás de qualquer clipe que a gente vê na internet existe um objetivo. Mais forte que isso, por mais piegas que possa parecer, existe um sonho. Sonho de dar certo, de ser aceito, de chegar lá, de pertencer. Lidar com as expectativas dos outros é, provavelmente, umas das mais delicadas instâncias do relacionamento interpessoal. Não tem nada de bom pra dizer, fecha a matraca e vai ler um livro.

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Levei alguns dias para entender o fenômeno A Banda Mais Bonita da Cidade. Mesmo. Três dias longe do Twitter, idem para Facebook, e quando eu cheguei, já era fato consumado. Confesso, prezado Único Leitor deste antro de teias de aranhas, que à primeira vista, a banda tinha tudo para me fazer detestá-la. Todos os coleguinhas ripongas tinham adorado, e isso era suficiente para alimentar meu preconceito (sim, eu TENHO preconceito. Apedreje agora.).

E assim NÃO se realizou a expectativa. Adorei. Adorei mesmo. Não tem explicação. A letra é um grude sem fim, uma repetição hipnótica, num crescendo (que provavelmente explica), tão obsedante que... ah, sei lá o quê. Fato é que há duas horas carreguei a música no youtube (feito histórico, porque minha internet é à lenha), e a cada três milimetros que o cursor avança, avançam três metros da minha admiração.

Meu termômetro pessoal se responde numa pergunta: "Eu teria no meu iPod?".

Hoje, exatamnte uma da manhã, a resposta é clara.

Sim.

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E entenda que a minha revolta com a crítica destrutiva não foi porque apaixonei pela música (e fiz um esforço doido para ODIAR). Podia ser Silvano Salles, como aliás, sempre foi lapidado. Podia ser Beto Botho (a culpa é dele, Sr. Namorado, que me apresentou!!). Quem quer que fosse, quem quer que seja, não DESTRUA.

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E se você, como eu, esteve alheio à vida online nos últimos dias, tá aqui o clip:



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E como eu e Brenda fofocamos no Facebook, plano-sequência nos arrebata.

sábado, abril 30, 2011

Quatro

Quase quatro e eu não dormi. Quase quatro, e ele dorme, e isso finalmente me faz feliz. Quase quatro, e chove como se não houvesse amanhã. Quase quatro, e...

Quase quatro, e estou completa. Quase quatro, e ele é a paz que eu sempre quis. Quase QUATRO DA MANHÃ, e eu estou sem sono, elucubrando sobre todos os carinhos que ele me fez na vigília. Sobre o amor que temos um pelo outro, absoluto, tranquilo, completo, intenso.

São quatro da manhã, e não consigo me lembrar de ter sido mais feliz. De ter achado o homem certo, de ter tido tanta paz quanto tenho hoje. São quatro da manhã, e são 174 dias entre céu e mar, entre tropeços (poucos, espero) e acertos, entre eu e ele.

São quase quatro, e eu vou tentar dormir, acompanhá-lo, acordar com ele, como sempre faço, e fazer com que ele seja o mais feliz possível.

É o mínimo. Diante de tamanha alegria que ele me deu, fazê-lo feliz é o mínimo que eu posso esperar de mim.